
Aprendendo a conversar e não somente a entrevistar
“Ele dorme em formol”. O comentário é engraçado e sincero e, sem meias palavras, resume a surpresa de quem teve a oportunidade de entrevistar o professor José Mendonça, um dos criadores do Curso de Jornalismo da UFMG. Aos 91 anos, seu jeito, cheio de vida e sagacidade, adicionado à exatidão de datas, dados, nomes e momentos que se revelaram durante a entrevista, mais que justificam a fala tão espontânea e que ressalta a “conservação” física, mental e intelectual do Mendonça.
A autora da frase, Aline Diniz (diretora), e seus colegas Phellipy Jácome (âncora), Leandro Eleto e Mariana Garcia (cinegrafistas) e Vanessa Veiga (fotografia e diário de bordo) estavam reunidos, naquele fim de tarde de abril, no alto do bairro Serra, na zona sul de Belo Horizonte, para realizar uma atividade do Laboratório de Entrevista - Memória do Curso. Tudo sob o olhar atento dos jornalistas e professores Cláudia Fonseca e Enderson Cunha.
Os trabalhos começaram antes: no planejamento da entrevista, na elaboração do roteiro e na marcação de data e horário com o professor Mendonça. E naquele dia, a preocupação tinha começado algumas horas antes. Dia agitado na Faculdade, com a realização da Mostra das Profissões da UFMG. No meio de milhares de estudantes que vinham conhecer os cursos de graduação da Universidade, expostos nas salas da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, a equipe da entrevista tentava se encontrar pelos corredores lotados do prédio e caminhava com câmeras, microfones, refletores e cabos e mais cabos.
Às 15h40, um pequeno comboio saía em direção à casa do entrevistado. Após enfrentar a eterna obra da Avenida Antônio Carlos, cortar o tumultuado centro da cidade e percorrer algumas ruas da Serra, finalmente aquele apreensivo grupo se deparava com um casal simpático e atencioso: José Mendonça e sua esposa Maria Tereza.
Logo começou o trabalho. Um mexe-mexe frenético: móveis arrastados, microfone na lapela, cabos conectados, câmeras posicionadas, iluminação acertada e tudo testado. Às 16 horas e 40 minutos as câmeras começaram o trabalho de registrar palavras do passado e imagens do presente.
A conversa começou com o processo de criação do curso, passou pelo perfil dos primeiros alunos e caminhou revelando os detalhes dessa preciosa história. E a palavra que melhor definiu a entrevista foi exatamente a usada no início desse parágrafo: conversa. Durante toda a entrevista o clima foi de seriedade e organização, mas sem perder o aconchego, o interesse e o prazer em escutar uma boa história contada por um bom velhinho.
Não houve uma pergunta que o professor Mendonça não soubesse responder. A boa memória permitia-lhe respostas seguras. A sensação era de que a resposta estava sempre na ponta da língua. E talvez estivesse, afinal, não foram poucas as vezes que ele contou a história da fundação do curso de jornalismo da UFMG.
E assim a entrevista (ou a conversa) se fez. Grande parte na frente das câmeras, outra, menor, ao redor de uma mesa, saboreando o café da anfitriã Maria Tereza. Ao longo de duas horas, alguns verbos foram conjugados no passado, presente e futuro. Os principais: entrevistar, conversar, aprender e ensinar.
Texto e Foto: Vanessa Veiga